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26 de maio de 2012

Ele riu na nossa cara

Guilherme Barducci

     Como todo povo que vive com um salário miserável e precisa literalmente se matar para garantir o pão (e só ele) o brasileiro tem dois empregos: garçom de pizzaria e palhaço.

     Se não é a verdade é o que parece. Isso porque tudo o que acontece no Congresso, ou quase tudo, acaba em pizza. Nossos legisladores tentam mostrar serviço, mas ele nem sempre vinga.

     E agora, (desculpe o jargão) mais do que nunca, provou-se que somos verdadeiros palhaços. Ou os senhores acham que somos. Um fica rindo na cara e o outro ao invés de tentar fazer o trabalho dele direito fica fazendo gracinha.

     Falo de sua senhoria, o bicheiro, Carlos Cachoeira que assessorado pelo ex-ministro da justiça Márcio Tomás Bastos utilizou de seu direito garantido pela Constituição Federal de permanecer calado e dessa forma não respondeu as dezenas de questões que os deputados dirigiram a ele.

     Os deputados entregaram o ouro. Mostraram ao bicheiro tudo o que ele queria saber. Permitiram que o genial Bastos anotasse tudo e no futuro possa dar as respostas de maneira a tentar agradar a sociedade. Isso porque Cachoeira já disse que não fala aos deputados nem em sessão secreta. Seu depoimento aos parlamentares acontecerá só depois do seu julgamento, o que torna toda essa farra dos nobres deputados totalmente desnecessária.

Cachoeira não falou e nem vai falar antes de ser julgado

     CPI é desnecessária. Quem tem que investigar é a Polícia, no caso a Federal. E o papel de julgar é do Poder Judiciário e de mais ninguém. Legislador é pago, e muito bem, para criar leis, regulamentar a vida em sociedade. No máximo têm o dever de procurar saber dos delegados das Operações Vegas e Monte Carlo o que eles obtiveram nos inquéritos, suas ligações com o bicheiro e também do nobre Demóstenes qual sua ligação com o contraventor.

     No depoimento de Carlinhos, certa estava a senadora Kátia Abreu que, aos gritos, pedia o fim da sessão, considerando-a “ridícula” e afirmando: “se estamos perguntando para uma múmia, o que as pessoas em casa vão pensar de nós?” e  que eles, parlamentares, estavam fazendo “papel de bobo para um chefe de quadrilha com cara cínica”.

     A finalidade da CPI é tentar obter respostas do bicheiro sobre suas atividades econômicas, sua ligação com políticos, com a empreiteira Delta – que presta serviços à máquina pública, e com a mídia nacional (lê-se a revista Veja e Época).

     Quando recebia alguma pergunta, Cachoeira respondia com cinismo que permaneceria calado “conforme a Constituição” e que só responderia depois do julgamento. Ele chegou ao ponto de julgar as perguntas, dizendo que elas eram, sim, muito boas, que o ajudaria muito, mas que, com um riso cínico, se manteria calado.

     Foram diversas respostas destas. A sessão, inútil, durou cerca de duas horas e meia, tempo record para uma sessão de CPMI.

     Por conta do cinismo do bicheiro, o delegado da PF e deputado Francisco Francischini (PSDB/PR) afirmou que “aqui (no Congresso) não tem um monte de palhaços” como parecia acreditar o contraventor. Já o deputado Rubens Bueno (PPS/PR) disse ao interrogado: “parodiando o que aconteceu aqui nesta semana, nós não somos teu", referindo-se ao episódio em que o jornalismo do SBT flagrou o deputado Cândido Vaccarezza (PT/SP) enviando um SMS ao governador do Rio, Sérgio Cabral, acusado de ligação com o bando do bicheiro e da construtora, afirmando que ele não seria chamado para depor na CPMI porque ele é ligado ao governo.

A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe você é nosso e nós somos teu.

     Diante de todo o circo armado, o deputado Chico Alencar (PSOL/RJ) chegou a afirmar que o silêncio do bicheiro não era problema, pois era uma “confissão de culpa”. Já Álvaro Dias (PSDB/PR) classificou Cachoeira como “marginal que sai da Papuda e mantém-se com a arrogância dos livres”.

     Acredita este blogueiro que o depoimento de Cachoeira, o bicheiro, na CPMI é inútil, desde que se faça as perguntas certas a ele no Tribunal. Os parlamentares devem mesmo investigar a sua laia, os senhores governadores Marconi Perillo (PSDB/GO), Agnelo Queiroz (PT/DF) e Sérgio Cabral (PMDB/RJ), o senador Demóstenes Torres (Sem Partido/GO) e outros que vierem por aí.

     E parece que o senador Humberto Costa (PT/PE) pensa o mesmo. No mesmo dia que Vaccarezza foi flagrado mandando mensagem para Cabral ele, Humberto afirmou: “aqui todo mundo quer convocar todo mundo, mas existem alguns intocáveis da República aqui!”, referindo-se a não convocação dos três governadores por parte da CPMI.

     Até mesmo o senhor Policarpo, que encobria a quadrilha através da revista VEJA precisa ser ouvido, mas no Tribunal. É uma verdadeira perda de tempo e de recursos públicos promover sessões como estas que não levarão a lugar nenhum. Deixem a cargo da Polícia Federal, senhores, a investigação e deixem que os tribunais façam seu devido trabalho. Até mesmo, porque os senhores resguardaram o direito do silêncio ao depoente que não estiver em juízo…

     E outra, os senhores não se interessaram ou deram conta de analisar todo o material que lhes foi fornecido, com todas as provas contra o bicheiro. Como querem interrogá-lo?

     Entenda o caso

     Tudo começou com a prisão do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira em 29 de fevereiro deste ano. A Polícia Federal, depois de oito anos de investigação deteu o contraventor através da Operação Monte Carlo. O problema começou quando Waldomiro Diniz, então assessor de José Dirceu, então ministro da Casa Civil, foi flagrado pedindo propina ao bicheiro.

     O flagrante foi da revista VEJA, que desde então não tocou mais no assunto. Depois veio a resposta: o responsável pela edição em Brasília, Policarpo Júnior se ligou ao bando de Cachoeira e passou a encobrir os fatos.

     Depois foi a vez do senador, até então defensor da democracia e da Ficha Limpa, Demóstenes Torres, que  ficava com 30% de tudo o que o bando do bicheiro recebia, cair. Ele ainda não perdeu o mandato, mas toda a credibilidade que ganhou, graças à revista VEJA.

     Por fim descobriu-se que a construtora Delta, responsável pelos projetos de infra-estrutura para a Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, ambos que serão realizados no Brasil tem ligação com o bando de Cachoeira. Por conta destas obras a Delta tornou-se a maior recebedora de recursos do governo federal.

     Os grampos da PF também mostram que Cachoeira tem ligação com os governadores de Goiás, do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, que em vídeo vazado por Anthony Garotinho mostra ter ligação com a Delta.

     De muito e de nada

     Uma CPI serve para investigar algum fato relevante para a vida pública e a ordem constitucional, legal, econômica ou social do país.

     Elas cumprem papel essencial para a vida democrática do país.

     Além disso todos os seus relatórios são encaminhados para outros órgãos, ou deveriam, que têm o papel de denunciar e de acusar os envolvidos com esquemas fraudulentos. Relatórios de CPIs podem ser enviados para o Ministério Público Federal, para a Polícia Federal e até mesmo para o Poder Judiciário, tal como para o Tribunal de Contas da União e para a Controladoria Geral da União.

     Porém, estudos mostram que um quarto das CPIs realizadas no Brasil, desde o caso PC Farias não produzem nenhum tipo de relatório final e especialistas ainda apontam que os que foram aprovados não resultaram tamanho efeito como deveriam.

     Além disso, os parlamentares brasileiros preferem utilizar a Comissão como palanque político, para, em português claro, dizerem que estão trabalhando, fazendo alguma coisa.

“O legado é mínimo. Veja as CPIs do caso Nike, por exemplo, ou a dos Anões do Orçamento, que não resultaram em nada. Vimos a partir de 1992 uma profusão de comissões que muitas vezes não levaram a nada”, critica (à BBC Brasil) o presidente da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco.

     Além disso a opinião pública é pouco informada sobre qual é de fato o objetivo da CPI, por conta disso a comoção que se cria é fria, sem fundamentos. As pessoas não têm argumentos suficientes. E quase sempre o serviço é feito de maneira insuficiente, como a do Cachoeira, em que se blinda os políticos envolvidos e para tentar mostrar serviço trazem o principal envolvido, de quem já se tem provas o suficiente para entrar mudo, ficar rindo, e sair calado.

     Imagem negativa

     Este mês a revista britânica The Economist publicou matéria afirmando que os escândalos em Brasília são frequentes e que a CPI que investiga o Caso Cachoeira colocará na berlinda os políticos envolvidos com o caso.

     O texto lembra o nome de Demóstenes Torres que até então era descrito na mídia como um homem de princípios e convicções e coube na lista dos cem brasileiros mais influentes de 2009 publicada pela revista Época (Editora Globo).

Demóstenes vestido de mosqueteiro da Ética na VEJA

     E finaliza: quanto mais a podridão na política brasileira é exposta, menor o número de políticos nos quais os brasileiros sentem que podem confiar".

*

     O pior de tudo é ter que aguentar políticos tentando mostrar serviço. Principalmente Collor, que nem devia estar no Senado, tentando incriminar alguém. Parece uma criança revoltada com vontade de vingança, mais nada. Um verdadeiro hipócrita.

     Pior ainda é ter que aguentar uma CPI chapa branca, que não investiga aliado, que não investiga gente da mesma laia, que não investiga ninguém.

     Ter que ver deputados e senadores jogando o pouquinho de trabalho que tiveram fora, mostrando todas suas perguntas para a defesa do bicheiro.

     Essa CPMI já começou errado. Começou como as outras começaram. Eles nem convocaram o tal do Policarpo. Porque será? Medo de represália na capa da VEJA? É de se esperar.

     É de se esperar também, que a Justiça brasileira, mais uma vez faça seu trabalho direito. Mostrando para a sociedade quem tem culpa e qual é a culpa, fazendo devolver tudo o que foi desviado, cancelar os contratos, cassar mandatos, enfim, tudo o que for necessário, porque dessa CPMI a única coisa que se pode esperar é saber o sabor da pizza que vamos ter de servir.

25 de maio de 2012

Direitos Humanos quer tirar Pânico da TV

Guilherme Barducci

     Depois de anos humilhando seus membros e ferindo a dignidade da pessoa humana e a imagem da mulher perante a sociedade o programa Pânico pode estar com os dias contados, pelo menos dois de seus quadros: “A Academia de Panicats” e “O maior arregão do mundo”. Isso porque o Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos representou contra o programa no Ministério Público Federal, alegando que os quadros são “exemplos negativos para crianças e adolescentes” e que “estimulam a discriminação e constrange a figura feminina”.

     Desde seu início o, agora, Pânico na Band, antes Pânico na TV (na RedeTV!), expunha de maneira deplorável a imagem da mulher, expondo de maneira excessiva seus corpos e tratando-as como objetos e não como pessoas humanas. Atitude tomada não só por este televisivo, infelizmente, mas por grande parte dos demais também, além, é claro, da mídia publicitária.

     E é isso que a “Academia de Panicats” faz: expor os corpos das atrizes, chamá-las de burras  e expô-las ao ridículo.

     Esse é um problema que o Brasil precisa combater. Este blogueiro já mostrava isso em 2010, quando em artigo para o Programa Construindo a Igualdade de Gênero do Cnpq afirmava que a imagem da mulher está sendo simplesmente usada para que o produto que ela oferece seja vendido.

     Com urgência a Secretaria de Política Pública para as Mulheres precisa, junto das entidades de Direitos Humanos lutar para por fim nisso. A mulher já fora líder social, como em Creta, é louvada no catolicismo e hoje gerencia empresas, lidera famílias e preside países. Porém ao mesmo tempo são tratadas como símbolos, objetos sexuais e somente isso. É um problema sério que a sociedade precisa enfrentar.

     As mulheres estão sendo traídas. Tudo aquilo que elas por muito tempo defenderam, como o direito de votar, o direito de ter razão sobre a própria vida, poder trabalhar fora de casa, não ter que ser submissa ao marido, acaba sendo menosprezado pelas emissoras de TV, em especial pelo Pânico na Band, e de rádio, pelas agências de publicidade e pelas grandes indústrias, que não pensam no desgaste que está sendo criado – e no que já foi – sob a imagem da mulher.

     E para isso, para que a cultura da delinquência, do machismo e do desrespeito pare de ser algo comum, pare de ser algo engraçado o primeiro passo é parar de veicular imagens e cenas como as da “Academia das Panicats”, um verdadeiro desrespeito ao gênero feminino e uma ofensa ao pudor.

     Muito além do desrespeito a mulher, o Pânico busca, também, denegrir a imagem e a dignidade da pessoa humana, com o quadro “O maior arregão do mundo”. No linguajar popular, o verbo arregar significa desistir de desafio, demonstrar fraqueza. Neste quadro o elenco do programa é colocado em situações vexatórias, sub-humanas, em que seus corpos são expostos a provas das mais, perdoe-me a expressão, idiotas. E o pior: quem não faz é, nas palavras de um dos atores “um bosta”.

     Há tempos que o Pânico perdeu o escrúpulo. E perdeu junto com a TV brasileira, ou então, por conta de seu sucesso ensinou a TV a perder o resquício de qualidade que possuía. O povo brasileiro se esqueceu da luta, se esqueceu da política e se entregou ao ridículo. Por conta disso o Pânico virou modelo de se fazer TV no Brasil.

     O problema disso? É que “existe um conceito filosófico comprovando que as pessoas em formação imitam o que veem com frequência. O programa passa ensinamentos de discriminação e atos violentos”, afirmou a professora Tânia Montoro, da UnB, que é phD em cinema e televisão. E continuou dizendo que “esse tipo de humor de naturalização da violência simbólica contra o feminino presta um desserviço à população brasileira”.

     O Pânico se esqueceu do que é humor e passou a transmitir violência, violência gratuita e com isso passou a incentivar a delinquência dos jovens brasileiros. Não há dados oficiais, mas certamente, em grande parte das escolas brasileiras surgem problemas por conta de “brincadeiras” incentivadas pelo programa.

     A censura não deve, de forma alguma voltar, porém é de se esperar que o governo brasileiro aprove logo o Marco Regulatório da mídia, impedindo que programas como este vinculem temas da mais medíocre importância.

     Boni, o pai do padrão de qualidade da TV brasileira, encerrou seu livro de forma filosófica, mostrando que a TV tem uma função social e que cabe a ela vincular os bons costumes e a boa cultura entre as pessoas: “o importante é que a TV aberta – que tem a concessão de usar  o espectro, que é um bem público – tenha consciência de sua responsabilidade social, que se preocupe sempre em elevar o nível de suas atrações […] E que, além do entretenimento, informe e preste serviços à comunidade e à nação”.

     Por conta disso o primeiro passo a ser tomado é mudar o horário do programa, impedindo que ele seja de fácil acesso a menores (o que é inútil, tendo em vista que ele é facilmente acessado pelo YouTube e que a cultura brasileira não impede que a criança fique até à meia-noite esperando um programa de TV).

     Por fim a necessidade fundamental é exigir que os quadros saiam do ar. Isto não seria uma censura, mas sim uma forma de proteger a dignidade da pessoa humana. “Temos várias formas de fazer pressão para que um programa como esse tenha boa qualidade, mas, com o humor, é um pouco mais difícil, porque às vezes perde-se o limite de respeito. Vivemos em uma sociedade com muitos problemas de educação. A televisão, além de ser um meio de comunicação, é um meio de instrução para as pessoas pois mostra o comportamento e pode influenciar nesse sentido”, disse Cláudio Ferreira, jornalista e mestre em comunicação visual. Para ele as autoridades devem exigir que a programação tenha qualidade.

     Exigir esta qualidade é dever do Estado e promovê-la é dever do meio de comunicação. Está na Constituição Federal, no artigo 221:

"A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I - Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais, informativas;

[...]

IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

     Se vão ou não interferir na liberdade de comunicação não se pode prever. O que se tem que fazer, então, é promover a consciência, a dignidade, o respeito, a inteligência. Deixar de lado programas como este que não levam as pessoas a lugar algum e deixar que eles caiam por terra, ou melhor, pelo IBOPE. Respeite-se.